Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005
Convido vcs a visitarem o site da Página da Cultura, agência literária, que colocou no ar entrevistas com os autores que representa. A minha entrevista pode ser lida aqui.
A grande novidade dessa semana é que a minha próxima novela, O Discurso da Paixão, será publicada pela NovaE, em capítulos, pela Net. Para a assinatura gratuita, é só clicar aqui.
Um excelente fim de semana para todos.
9:29 AM
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Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005
Marina...
Fui lendo os e-mails que chegavam, e fiquei impressionada. Dava para sentir, mesmo à distância, a tristeza de Marina. Os sinais gráficos de felicidade, as risadas em maiúsculas, nada disso conseguia me convencer: ela estava triste.
Mandei piada, escrevi poemas, contei novidades, enviei links interessantes e, a todos esses sinais ela respondeu com elegância. Não, não dava para ignorar; a tristeza de Marina era grande, imensa demais.
Pensei em chamá-la para um passeio de helicóptero, convidá-la para uma cerveja de final de tarde, levá-la para alguma exposição de arte. No MSN, esperei, pacientemente, ela surgir. Eu sabia: a única coisa que podia fazer era assistir, calada, ao sofrimento dela.
Quieta, então, aguardei.
9:39 AM
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Terça-feira, Fevereiro 22, 2005
CLARA
Clara acordou quando a madeira apodrecida caixão fez um estalo, sob efeito da umidade e da terra que fermentava de vida, e era sempre assim, o sono interrompido por obra dos efeitos do tempo e da morte. Cuidadosamente, aproveitou a fresta e moveu-se, tênue fio de fumaça amarelada, para fora da tumba.
Ajeitando os trapos cinzentos de suas vestes, Clara iniciou a caminhada. Como fazia há dois anos, ao passar pelo corredor apanhou no canteiro o facão de cortar arbustos. Ao encontrar Sonia, sorriu. Deram-se as mãos, as duas, conversando enquanto alcançavam o outro túmulo, o do menino filho de Sonia.
Clara lembrava-se. Naquela terça-feira do assassinato do marido e do seu suicídio, o dia havia amanhecido cinzento. Clara acordou com fome e, na cozinha ladrilhada, preparou o café com leite, o pão quente com manteiga, a banana picada com açúcar e mel. Ao bom dia dado pelo marido respondeu silenciosamente, desejando desesperadamente passar despercebida. Comia de forma distraída quando viu o esposo na biblioteca, reclamando do pó nos livros e da desordem da mesa de trabalho. Ainda engolia o resto da fruta quando, num rápido impulso, ao retesar o corpo por causa da lembrança que invadia o seu coração, retirou a chave de fenda da gaveta de ferramentas e enfiou na garganta do homem com quem havia se casado. O mel ainda secava no palato quando Clara se jogou do oitavo andar, estatelando-se na calçada em frente ao edifício.
Ficou ali, durante horas. Apenas perto da hora do almoço chegaram as duas filhas, acompanhadas pelo advogado. Curiosa com o que imaginava estar acontecendo no apartamento, Clara lamentou a própria estupidez. Deveria ter se matado lá mesmo, para observar a movimentação de todos, divertir-se com o cadáver ensangüentado do marido, vigiar se não mexeriam nas suas coisas pessoais, se abririam gavetas ou roubariam as poucas jóias do aparador do quarto. Era tarde demais e esqueceu o assunto, ocupada demais em olhar o mundo dali do chão, e depois os preparativos do enterro, a roupa nova que nela colocavam, o trânsito do féretro até o cemitério, as rezas e o choro dos familiares e amigos.
Aproximando-se do túmulo do marido, Clara suspirou. Com vagar, levantou o tampo de cimento que protegia os restos do caixão. Os ossos ainda estavam lá, bem como as marcas das facadas anteriores, desferidas diariamente nos dois anos transcorridos desde o enterro. O marido abriu os olhos, fitando-a atônito, parecendo pedir o fim do pesadelo. Clara não contemporizou.
- Durma mais tarde. Acorda! Erguendo o facão de cortar arbustos, ela então golpeou o corpo putrefato. Uma vez, duas vezes, três vezes, cem vezes. Parou quando o que sobrava dos músculos começou a doer, impedindo-a de continuar.
- O que eu fiz de tão terrível, Clara, para merecer isso? Me explica, por favor...Me fala, me perdoa e me deixa descansar, Clara... Estou cansado, cansado demais... - o marido resmungou, num soluço.
A mulher sentou-se na grama, ao lado da cova exposta. Explicar? Seria possível explicar? Ele não fazia a menor idéia, ela tinha certeza. Não fora, afinal, por causa dos anos de silêncio e amargura em que ela vivera, à espera de um sorriso, por menor que fosse. Tampouco por causa da falta de carinho, da falta de jeito com que o marido a pegava todas as noites. Também não o matara por vingança, para lavar o sangue em que a empregada doméstica se esvaíra, o aborto mal feito da gravidez da qual o patrão não queria saber. Imaginou que o marido atribuísse sua vingança aos eventuais tapas que haviam trocado durante aqueles anos. Mas, nada disso havia realmente incomodado Clara, e era difícil explicar ao cadáver que suplicava justificativas e perdão. Para tudo aquilo, ela havia conseguido alívio nas preces, nas palavras ouvidas na Igreja, no conforto das amigas. Largando o facão de cortar arbustos, Clara sussurrou baixinho, no ouvido do marido:
- Você não consegue lembrar, e eu não consigo esquecer.
Com desprezo, Clara cerrou a tumba. Sonia já terminava de amamentar o filho e, juntas dirigiram-se aos seus próprios túmulos, o dia se anunciando e a hora do repouso retornando para todos. Tudo era silêncio no cemitério, as almas voando para os seus lugares, amantes se despedindo, pais e filhos se abraçando e prometendo reencontro breve. Clara perdoava tudo, só não conseguia relevar o ocorrido na noite em que a primeira filha nascera. Naquela noite, no hospital, Clara tinha dado à luz depois de um parto difícil, as dores esgotando-na. No quarto, enfaixada e sob efeito dos analgésicos, tentava dormir. Ao seu lado, o marido remexia-se e resmungava, inutilmente procurando se acomodar no pequeno sofá de acompanhante do hospital. Era madrugada quando o burburinho começou, orações ditas em uníssono, pessoas no quarto contíguo se lamentando. Também se ouvia o choro desesperado de uma mulher. Um menino havia nascido morto, a mãe urrava de dor e a família se desesperava. Momentos depois, mais barulho, a maca levando a mulher, os médicos tentando conter a hemorragia. No começo da manhã, os soluços do homem arrebentado pela dor da perda do filho e da esposa.
Como feixe de luz, Clara voltou para o buraco e acomodou a cabeça no montinho de terra que se fazia de travesseiro. Atenta, procurou acompanhar os ruídos da manhã que iniciava, embalando-se na lembrança: naquela noite, há mais de quarenta anos, Clara havia visto o marido, irritado com o barulho, dirigir-se até o balcão das enfermeiras. Nervoso, ele pedia, aos berros, providências imediatas para que os ruídos cessassem e ele pudesse descansar.
Clara, sentindo-se novamente vingada, adormeceu: os homens chegaram com as pás e, inquietos e barulhentos, começaram a cavar a abertura de novas covas.
1:03 PM
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Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005
Dica de Fim de Semana...
Por sugestão de um amigo querido, talentoso e extremamente charmoso, a dica para esse fim de semana é Eça de Queiroz, em especial os contos Civilização e José Matias.
Inté segunda,
Ivy
6:35 AM
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Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005
9:15 AM
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Terça-feira, Fevereiro 15, 2005
9:08 AM
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Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005
11:07 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005
Dica de Fim de Semana...
Como "ele" mandou que eu lesse Machado de Assis, um querido amigo sugeriu dois contos: A Causa Secreta e A Missa do Galo...
Se vcs também quiserem ler, o link é Machado de Assis...
Bom fim de semana para todos...
10:45 AM
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Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005
Despedida
Marina acordou com a luz do dia machucando os olhos. O leve tecido da cortina deixava vazar a luminosidade, e o brilho da manhã acariciava sua face. Levantou-se, preguiçosa. Foi ao banheiro, usou o sanitário, lavou-se, dirigiu-se à cozinha. Lá, viu o recado manuscrito, preso à porta da geladeira com um pequeno imã. A letra de Celso, rápida, firme.
"Querida Marina, querido amor. Não te chamo para não atrapalhar teu sono, tão suave (você chegou cansada ontem, e também não tive a coragem ou ousadia de te chamar para uma conversa...). Parto desse jeito, sem incomodar ou causar qualquer desconforto. Espero conseguir partir em silêncio.
Preciso explicar os motivos? Desde o começo, sabíamos que um dia acabaria. Ou por falta e inconstância do desejo, ou por que conheceríamos outras pessoas, outros interesses, ou, mais triste ainda, por que cumpriríamos a profecia auto-realizadora de não ficarmos juntos para sempre. Prometemo-nos apenas amizade eterna, lembra? Deixo-te então aqui minha fraternidade infinita, o favor maior que eu poderia fazer a uma grande amiga, desaparecer da vida dela sem deixar pistas, reclamar, acusar, o silêncio da compreensão.
Se me encontro apaixonado por outra? É isso que você quer saber? Não, minha querida, não há ninguém além de ti. Se te amo? Te amo, e com uma paixão que eu mesmo acho absurda, incomensurável. Então, imagino a pergunta agora nos teus lábios, querendo saber a razão da minha partida. Também não sei. Apenas percebi, ontem, quando te vi, durante os preparativos para o sono, que não conseguiria ficar mais um dia que fosse ao teu lado. Compreendi a dor do insuportavelmente belo, o peso do carinho intenso demais, asfixiante até.
Vou te poupar das frases de efeito por que sempre fizemos por nos merecer. Não te machuquei mais do que você a mim; admitamos. Dei-me na mesma medida em que você se deu para mim. Não trate essa separação como evidência de fracasso pessoal, de insucesso. Acertamos em tudo e, acredite, nossa separação é acerto também.
Você será generosa e inteligente: não me procure. Deixo para você tudo o que juntamos nesses últimos cinco anos, os livros, CDs, quadros, amigos. Ah, não esqueça de ligar para a Biblioteca, por que avisaram que a tua encomenda já chegou. Também não esqueça do aniversário da tua prima, amanhã à noite, lá no bar. Não esqueça de nada e siga em frente".
Marina dobrou o recado, cuidadosamente. Sentou-se à mesa e esmigalhou um pedaço de bolacha esquecido por cima da toalha. Releu o bilhete, mais uma vez. Uma outra vez quando o sol se equilibrou no centro do céu, a marcar a metade do dia que se fora. Uma outra vez quando anoiteceu, e mais uma vez, e mais uma vez. Admirou-se com a ausência de lágrimas e de brilho nas estrelas que já se anunciavam no céu.
1:05 PM
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Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005
Olá,
Foi publicado um conto meu na Revista Novae. É uma estória bastante interessante sobre as filhas do Rabino Mandelbaum e acho q vcs vão gostar. O link para acessar o conto é esse .
Super beijos,
Ivy Knijnik
2:38 PM
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"Reflexos, ecos se encadeando ao infinito. Descobri a doçura de ter atrás de mim um longo passado. Não tenho o tempo de me narrar, mas às vezes, de improviso, eu o vejo em transparência ao fundo do momento presente: ele lhe dá sua cor, sua luz, como as rochas e as areias se refletem na cintilação do mar. Antigamente, eu me embalava com projetos, com promessas. Agora, a sombra dos dias mortos aveluda-me emoções e prazeres"
(A Mulher Desiludida, de Simone de Beauvoir)
12:59 PM
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Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005
O 41o. Aniversário
O bar estava apinhado quando ela chegou. Esgueirando-se, entrou, procurando uma mesa vazia. Sentou-se, pediu uma cerveja, uma porção de batatas fritas e esperou: ele chegaria em breve. Ao telefone, tinham combinado horário e lugar. Comemorariam o aniversário dela, o quadragésimo primeiro. Retirou o celular da bolsa; talvez ele ligasse, avisando de algum atraso, talvez telefonasse pedindo perdão por não amá-la tanto quanto ela o amava.
De tarde, cansada do calor e do acúmulo de provas para corrigir, pegara um livro. Simone de Beauvoir, escrevendo sobre a idade da discrição. Ao chegar da academia de ginástica, ele a beijara, convidando-a a sair. "Está lendo Simone? Hummm, uma gostosa lendo outra gostosa...". A risada dele ecoava nos seus ouvidos agora, misturando-se às frase do livro. O mundo se constrói sob meus olhos num eterno presente. Habituo-me tão depressa às suas faces que ele não parece mudar.
No ano passado, recordou, doía pensar. Na pizzaria onde comemoravam o quadragésimo aniversário - todos os amigos reunidos e a família presente - olhava as outras mulheres, imaginando quais já teriam estado com ele. Vigiava os pensamentos dele, planejando como aprisioná-lo, como acorrentá-lo perto de si. Irritada consigo mesma, ela havia se prometido contenção, discrição, economia ao se dar, satisfação em receber aquilo que ele poderia oferecer. Um ano havia se passado, e agora ela olhava para a porta do bar, ansiosa. "Você tem razão, querido. Sempre alguém ama mais".
Percebia: os doze meses transcorridos não haviam sido suficientes. Ao vê-lo entrar no bar, a mesma alegria juvenil, o mesmo calor nos braços, o andar majestoso, o porte viril, uma dúzia de rosas nas mãos, o amor discreto e calmo no olhar, ela entendeu que acabava de se apaixonar, novamente, do mesmo e exato jeito de quando o vira pela primeira vez. Sorridente e esperançosa, ela recebeu as flores e o beijou.
8:39 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005
A MESA DE JANTAR
O caminhão quase estava totalmente carregado, os móveis amarrados, as trouxas presas por fortes e grossos cordões, quando o pai percebeu o que acontecia. Berrando, ele se dirigiu, não aos homens que transportavam a carga para dentro do veículo, mas aos filhos que observavam a retirada dos objetos de dentro da casa.
- O que vocês estão fazendo com a minha mesa de jantar?
Os filhos se entreolharam. Bem que haviam tentado enganar o homem, aproveitar a bagunça da mudança e se livrar do pesado móvel de jacarandá envernizado. Naquele instante, o pai encarava os filhos, a mágoa estampada no rosto, a indisfarçável amargura. Estavam tentando tapeá-lo? Não haviam prometido que a mesa de jantar receberia um tratamento especial? Com que objetivo, então, com que descaso, como então podiam os filhos agir dessa forma, sub-repticiamente, como se fossem ladrões na calada da noite?
Ao zelador que acompanhava a mudança, orientando o uso dos elevadores e da garagem, o pai contou a estória da mesa, da belíssima mesa de jacarandá, do marceneiro italiano, um sujeito que aprendera o ofício com um importante artesão europeu. A madeira cortada manualmente, lixada com carinho, os desenhos dos detalhes, o cheiro do verniz importado. Além disso, Cacilda servira as refeições, todos os dias, durante cinco maravilhosos anos, ali, àquela mesa. Cacilda, com as ancas redondas e fartas, o sorriso no rosto, o jeito servil. Como então os filhos ousavam jogar a mesa no caminhão? Não bastavam os armários esvaziados, os tapetes dados de presente ao açougueiro, as roupas distribuídas em orfanatos, os pratos da cozinha entregues para a escola da Igreja? Nada disso o incomodava, os filhos que tivessem certeza, mas ele jamais admitiria que a mesa de jantar, a belíssima mesa de jacarandá, fosse deixada daquele jeito, apenas mais um volume no caminhão de mudança.
O filho mais velho irritou-se. O pai parecia irredutível, e os homens do caminhão aguardavam alguma decisão, todos de pé na boléia do veículo, movimentos interrompidos à espera de uma ordem.
- Retira a mesa daí! - ele então gritou, para alegria do pai e espanto da irmã.
Os homens do caminhão afrouxaram os nós que seguravam o móvel e iniciaram a remoção da mesa de jacarandá. A irmã, espantada, colocou os braços na cintura. O que fariam com aquele monstrengo de jacarandá envernizado? O pai que entendesse. Na casa dela não havia espaço, apenas uma salinha acanhada. O irmão pretendia levar a peça para sua própria residência? Não haviam combinado todos a ida do pai para o asilo e o desmanche da casa? E agora? Como resolver?
O irmão sentou-se na calçada defronte ao prédio e acendeu um cigarro. Os homens da mudança pararam de trabalhar, ajeitando-se todos na boléia do caminhão. O zelador usou o interfone para avisar os moradores que os elevadores ainda não estavam liberados, o mundo que esperasse. Ao avistar o pai agarrado à mesa, feliz e o rosto iluminado, a filha começou a chorar baixinho. E agora?
O irmão acabou acertando outra viagem com os homens do caminhão. Eles que levassem a mudança para os lugares combinados e, depois, a mesa de jacarandá para o asilo onde o pai moraria dali para frente. Lá no asilo algum milagre aconteceria, o impasse seria resolvido, e que a mudança fosse feita logo, por que o corretor aguardava a entrega das chaves do apartamento e ele desejava encontrar a amante no final da tarde.
A mesa foi colocada em outra caminhonete e o pai sentou-se numa das cadeiras amarradas às grades do veículo. Recordou o momento em que a mesa entrara na vida da família, a felicidade dos filhos ainda crianças com o móvel imponente que se ajeitava no centro da sala, o orgulho da mulher com o brilho do verniz. Vigiaria o transporte, estava decidido; a casa que se danasse, os outros móveis entregues para qualquer um, a devastação na residência onde tivera e criara os filhos, onde amara com respeito a esposa, onde desejara Cacilda, a boca seca e a mão ansiosa por tocar as carnes duras da mulata. Que tudo fosse para o inferno, a vida era assim mesmo, construir as coisas para depois abrir mão, juntar para depois distribuir, apegar-se para depois perceber a falta de importância.
Ali, na parte traseira da pickup, o pai observou o movimento das ruas, o caminho que fazia, despedindo-se do prédio já distante do campo visual, um derradeiro olhar ao bairro onde morara por tantos anos. No asilo, acompanhou a retirada da mesa da caminhonete e, satisfeito, viu que a colocavam no terreno baldio ao lado do estacionamento, da janela do seu quarto podendo ver a mesa, vigiar a ação de gatunos, acompanhar a ação do tempo. No dia seguinte, decidiu, iniciaria a construção de uma pequena edícula para proteger o móvel, e convidaria os amigos do asilo para um chá no final da tarde. Reuniria os netos à volta da mesa quando das visitas dominicais, contaria para as crianças da habilidade do artesão e do cheiro do verniz importado, alisaria a madeira com carinho.
Deitou-se na nova cama e observou o novo quarto. Inseguro, voltou à janela e olhou mais uma vez para a mesa, solene a reinar no espaço vazio do terreno baldio. Recordou o momento em que salvara a peça do desastre e do abandono e sentiu o corpo formigando à lembrança da antiga empregada, a pele morena, a delicadeza ao perguntar se ele desejava mais alguma coisa, um pouco mais de água no copo, a carne mais cozida, mais feijão no prato, tempero na salada. Orgulhoso de si mesmo, adormeceu, sussurrando baixinho o nome de Cacilda...
9:42 AM
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Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005
(alt 112)aula, sua (alt 112)uta...
Adorava passear pelo teclado, alisando os dedos no recôncavo das teclas, acomodando-se vagarosamente, e era assim que escrevia para Paula, a morena gostosa com quem saía às quintas-feiras. Aos poucos, percorrendo o piano das letras, divertindo-se em seduzí-la e surpreendê-la.
Naquela tarde, mastigando uma bolacha e navegando pelas telas da Rede, selecionou com o mouse a opção da caixa postal dos emails. Assustou-se quando viu, em negrito, a chamada. "Adeus, querido". Coração acelerado, leu a mensagem. Era isso mesmo, uma despedida. Paula tinha conhecido outro homem, estava cansada de esperar pelo divórcio dele, queria viver novas experiências, o verão acabava e ela sequer tinha descansado um pouco.
Trêmulo, o teclado à espera, tentou responder. Como então ela ousava sair desse jeito, dizendo adeus por email, sem ao menos marcar um encontro, dar um ultimato, explicar pessoalmente razões e motivos?Ao apertar a tecla, apenas a ausência no monitor e o desespero inócuo de escrever o nome dela. Cadê a letra "p"?
As migalhas de biscoito no teclado impediam o dedilhar. Insistente, ele digitou. "(alt 112) aula, sua (al 112)uta, que merda é essa?" Ao apertar a tecla de envio, a conexão se perdeu e, irritado, ele chutou a mesa. Depois de reiniciar o computador, percebeu: perdera também as letras "m" e "t". Desolado, entregou os pontos.
10:12 AM
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Terça-feira, Fevereiro 01, 2005
OS DEGRAUS
(Mário Quintana)
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo
8:35 AM
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