Domingo, Maio 06, 2007
Finalmente, encontrei uma nova casa.
Estou no endereço Falando Reservadamente
Te aguardo....rs
Ivy Judensnaider
7:56 PM
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Sexta-feira, Junho 03, 2005
Despedida...
Quase dezoito meses aqui... Na mística judaica, 18 é um número mágico, um número de sorte, de fortuna. Então, aproveito a ocasião para me despedir desta casa, que tantas alegrias me deu. Estou de mudança, para um novo endereço.
1:51 PM
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Domingo, Maio 29, 2005
Hoje, São Paulo vai realizar a maior Parada Gay do mundo.
Estamos esperando 2 milhões de pessoas na Av. Paulista.
A gente se vê por lá...rs
10:29 AM
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Sábado, Maio 28, 2005
Sugestão...
Sugiro a leitura do blog da Andrea del Fuego.
Bom domingo para todos.
10:50 PM
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Sábado, Maio 21, 2005
Sábado
O bar existe apenas na lembrança dele, meu amigo que conta da cerveja compartilhada com outros na esquina da Fradique Coutinho. O bar não existe de fato, ao menos para mim e, no entanto, eu poderia descrevê-lo, falar dos detalhes das paredes envelhecidas, das mesas de madeira, das cadeiras de assento plastificado. Se quisesse, falaria também da mulher que entrou, perto da meia-noite, atrás de cigarro ou alguém conhecido.
Meu amigo tem a voz morna, viril e, com um jeito charmoso, lê trechos do texto que irá publicar. Ciúmes, amores não correspondidos, traição, espanto, desalento. Digo que percebo, nas entrelinhas, rancor. Eu o cumprimento, difícil escrever sobre um sentimento tão pequeno, tão mesquinho, e ainda por cima tingi-lo com tons de poesia...Ele escreve bem, bem demais. Fico emocionada, e talvez por isso o bar do qual ele fala torna-se real. Posso sentir o gosto da cerveja escorrendo pela garganta, fico indignada com a camiseta rasgada da mulher à procura de fumaça e companhia. Modismo ou desistência da busca de qualquer padrão estético de beleza?
Esse amor sobre o qual meu amigo escreve me traz recordações. É agora em outro homem que penso, na rejeição, nos sonhos frustrados, no incompreensível recuo de quem não se permitiu o direito do prazer. Afundo na leitura de Foucault e Henry Miller. Com o país estagnado e a economia em frangalhos, restam-me jogos intelectuais, dedutivos, apenas para não permitir que o cérebro apodreça, inerte. Esforçando-me para compreender o vazio e do deserto que me cerca, reconheço: da última relação, não ficou nada, nem ao menos uma lembrança afetiva. Penso na psiquiatria, na psicanálise, no discurso do sexo, no poder de repressão do Estado, nas interdições inúmeras que o mundo articulou para impedir, cercear e supervisionar o prazer alheio. Eu resisto. NÃO! Não admito. Não falarei sobre quantas vezes por semana faço amor, não abrirei espaço para que um desconhecido se sinta no direito de compreender meu psiquismo melhor do que eu mesma. Se precisarem da minha confissão, nada terão. Se precisarem da descrição detalhada do quê eu pensava quando tomava banho, ou do rosto que me embalava os sonhos, ficarão sem resposta alguma.
Meu amigo está preocupado em superar a dor da perda, da impossibilidade de ter quem deseja. Procuro colocar os pensamentos em ordem, falando sem parar. Ele escuta, paciente e carinhosamente. Combinamos então nos encontrar, um bar real para ambos, cerveja de verdade, abraços sinceros e beijos fraternos. Despeço-me, desligando o telefone. Vamos escrever, nós dois, cada um no seu canto. Para outro alguém, deixo um recado, largado no espaço virtual. "Não te escondes do mundo, te escondes de ti mesmo. Espero que te encontres. Se não souberes onde estás, então não poderei jamais te achar". Fico admirando o monitor iluminado, desviando às vezes o olhar para outra janela. Chove, chove muito. Penso no trânsito que me aguarda, nos mistérios e segredos da alma, na revolta que há pouco me dominou.
Cada um sobrevive como pode.
4:16 PM
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Sexta-feira, Maio 13, 2005
Estréia....
Convido vcs para conhecerem O Caixote, revista eletrônica digital. No número 19, faço minha estréia aqui.
Bom findi prá todo mundo...
2:35 PM
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Quarta-feira, Maio 11, 2005
COMUNICADO...
Tenho a honra (e o alívio) de comunicar que, hoje, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, me foi concedido o título de mestra em História da Ciência, com a nota 10. Gostaria de agradecer imensamente ao meu orientador, Prof. Dr. José Luiz Goldfarb, e às profas. Maria Helena Roxo Beltran e Suzana Schwartz, pela banca generosa e atenta. Também quero enviar um abraço enorme para a Profa. Ana Alfonso-Goldfarb, e para Silvana Lutaiff, que me segurou a mão e me deu forças.
Para os amigos que me apoiaram, deixo um beijo grande. Para Borges, Guima, Mr. Coffee, Pim, Joey B. e Joey, que me suportaram nos últimos dois dias (mandando mails e papeando no MSN), beijos maiores ainda. Para o Nando, minha gratidão pela compreensão e solidariedade. Para os meus filhos, espero deixar a lição de que devemos, SEMPRE, lutar pelo que sonhamos.
5:26 PM
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Terça-feira, Maio 10, 2005
Ainda sobre a entrevista....
Para quem perdeu as entrevistas na Rádio Usp, sugiro que clique:
a) aqui. É só escolher o terceiro bloco do programa. Foi interessantíssima, com uma super produção da equipe do Marcelo.
b) aqui. É só escolher o segundo bloco do programa Clip Informática, comandado pelo Alexandre.
10:40 AM
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Sexta-feira, Maio 06, 2005
Entrevistas....
Dei duas entrevistas para a rádio USP (sobre internet, paixões virtuais e a comunidade judaica), que serão transmitidas nas seguintes datas:
a) nesse domingo, dia 08/05, às onze da manhã, para o programa Clip Informática;
b) na segunda feira, dia 09/05, ao meio dia, com reprise na terça, dia 10/05, às 23 horas. Essa segunda entrevista estará posteriormente no site da rádio USP (clicando em programas, é só ir até Biblioteca Sonora).
Bom fim de semana....
9:58 AM
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Sábado, Abril 30, 2005
Chuva...
Chove demais, a Av. Marginal totalmente alagada. Acima, de um viaduto, a calha joga água, cachoeira urbana ininterrupta. Os carros, ao passarem por ali, desviam. Mãos aos volantes, olhares atentos, os motoristas miram à direita.
Eu respiro fundo e acelero. Passo exatamente por baixo da cachoeira; fico feliz com o barulho da água, as gotas lavando o capô, a alegria da enxurrada nos movimentos do pára-brisa. Sigo em frente, rindo demais. Abro as janelas e deixo a chuva me molhar.
A vida é insuportavelmente bela, às vezes.
2:56 PM
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Sexta-feira, Abril 29, 2005
Meus alunos mui queridos....rs
Pois é.... Queria deixar um beijo imenso para os alunos de oitavo semestre de Administração e Comércio Exterior, e parabenizá-los pela entrega da monografia final de conclusão do curso.
Aqui, uma lembrança dos meses que passamos juntos, trabalhando incansavelmente....rs
9:53 AM
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Segunda-feira, Abril 25, 2005
do jornal Folha de São Paulo de domingo
Diálogo 1 (da Maitena)
Amiga A: Olha, sempre que um cara tem duas mulheres, as duas se invejam. A amante inveja que a mulher coma com ele todos os dias, que vá com ele a todos os lugares e que durma com ele todas as noites...
Amiga B: E a mulher?
Amiga A: ... que a outra não tenha de fazer isso.
Diálogo 2 (de Dois Reis)
Um: Vamos atacar o sistema enquanto coisa.
Dois: Não! Temos que atacá-lo enquanto proposta.
Um: Enquanto coisa!
Dois: Enquanto proposta!
Um: Coisa!
Dois: Proposta!
Um: Vamos tirar no palitinho.
Dois: Enquanto palito ou enquanto jogo?
(risos....ótimos, né?)
11:17 AM
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Quinta-feira, Abril 21, 2005
vento minuano...
(para marco guilherme, o guima)
Sei do vento,
da promessa e do afeto que ele carrega,
da mudança de paisagem,
das nuances,
fragrâncias,
linguagem e texturas,
das mensagens indecifráveis,
dos vestígios de pó,
saudades.
Sei do vento,
mas não sei do teu nome.
Sei do vento,
mas nada sei de mim...
11:59 PM
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Quarta-feira, Abril 20, 2005
lesão por esforço repetitivo...
São Paulo, meio-dia. Respiro fundo. "Calma, menina, muito calma...". O trânsito me enlouquece, os carros transpirando no asfalto quente, os moto-kamikazes zombando da vida e do céu azul, ensolarado.
Dirijo devagar, prestando atenção em tudo, de olho nos faróis e placas de sinalização. Na Av. Paulista, uma ambulância geme baixinho. A fila de carros parados aguarda algum milagre. A ambulância insiste, grita mais alto, pede licença para passar, de qualquer jeito, de qualquer maneira. Um automóvel, assustado, sobe na guia; outros invadem as faixas contíguas, tentando criar vazio no espaço inexistente. O som da sirene me perturba: relembro outra ambulância, há tempos, levando alguém em coma.
Lágrimas umedecem meus olhos. As mãos crispadas, ao volante, me fazem lembrar do autodiagnóstico logo pela manhã. "Devo estar com alguma lesão por esforço repetitivo". Os dedos inchados doem, as juntas parecem duras e a musculatura do braço está rígida. A ambulância consegue passar, e eu relaxo ao volante. A mão esquerda, antes contraída, relaxa também. Ainda presa ao passado, tento imaginar a pessoa conduzida em estado grave, torço para que a ambulância chegue logo ao seu destino. Enxugo as lágrimas com a ponta da camiseta e me preparo para seguir em frente.
São Paulo, meio-dia, véspera de feriado...
4:18 PM
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Terça-feira, Abril 19, 2005
sobre a Rádio Usp...
Olá,
Peço mil desculpas. A entrevista que dei hoje, terça feira, para a Rádio Usp, será transmitida daqui a duas semanas.
Buáaaaaaa....Não foi ao vivo....rs
Para quem me desculpar pela falha, prometo um sorriso, um beijo e um bombom sonho de valsa...rs
O beijo já deixo aqui...
Tchau
Ivy
11:11 AM
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Segunda-feira, Abril 18, 2005
amanhã, na Rádio USP....
Estarei amanhã, terça feira, a partir das dez horas da manhã, conversando com o Marcelo Bittencourt, da Rádio USP.
Vc pode acompanhar pelo rádio (93,7 MHz) ou pela internet, clicando aqui. No site da Rádio USP, é só clicar no lado esquerdo, prá ouvir a transmissão ao vivo.
Inté...
10:14 AM
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Sexta-feira, Abril 15, 2005
um conto...
Foi publicado, na NovaE, um conto meu: O Encontro.
Passa lá... Beijos e um excelente fim de semana para todos.
10:24 AM
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Segunda-feira, Abril 11, 2005
A Estrangeira
Ele está sentado, observando Irina às voltas com a confusão matinal: café da manhã, material para impressão no escritório, livros para serem devolvidos à biblioteca, ligações telefônicas e e-mails. Irina murmura, falando consigo mesma. Xinga, chora, grita. Avisa que está de mau humor e que não quer ser aborrecida, tampouco dar satisfações do que pensa ou almeja.
Ele olha para a mulher com amor e afeto. Incrível gostar tanto assim dela, espanta-se! Irina interrompe o trabalho e vai até a janela. Ele, quieto, continua velando - distância discreta e amiga - a falta de ordem e serenidade da mulher. Sabe, tem certeza: a qualquer momento, Irina irá notar a sua presença. Atirar-se-á em seus braços e voltará para casa, desistindo de ser peregrina, estrangeira em sua própria terra.
11:48 AM
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Quarta-feira, Abril 06, 2005
ainda lembrando de mim mesma...
(mais um post antigo)
Batom...
A boca?
Pinto sempre com uma cor forte.
Rosa claro forte.
Vinho escuro forte.
Terra roxo forte.
É sempre forte o meu desejo por um beijo teu.
1:45 AM
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Segunda-feira, Abril 04, 2005
fogo...
Eu te aviso: queimo.
Queimo por dentro e por fora e,
se você não estiver preparado,
não chegue perto.
Eu te aviso: queimo.
Queimo por queimar,
por existir,
por mera teimosia,
por hábito,
vício,
destino.
Se você não me quiser,
ou não me desejar,
ou não souber se proteger,
não chegue perto.
Vou te avisar,
mais uma vez:
eu queimo.
12:34 PM
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Domingo, Abril 03, 2005
lembrando de mim mesma...
(um post antigo)
Unhas Cor de Sangue
Pintei as unhas com esmalte cor de sangue. Inicialmente, pensei que talvez estivesse pretendendo exorcizar a dor, extrair das mãos o vinho que me embebedara tanto, deixar vazar tudo que incomodava. Depois, reconsiderei. Percebi que era apenas vontade de ser flor, perfumada, pronta para ser colhida e acarinhada...
Fiquei assim, inebriada com os pingos fortes destacados na brancura dos dedos, exalando cheiro de calor e vida...
7:26 PM
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Segunda-feira, Março 28, 2005
"ponhando" recado na porta...
Olá,
Estarei off-line até quinta feira.
Aos alunos e amigos, deixo um super abraço.
Retorno no final da semana.
Beijos,
I.
10:16 AM
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Quinta-feira, Março 24, 2005
O Mosaico Mágico da Ciência...
Convido vc a visitar o site da Novae e ler o artigo O Mosaico Mágico da Ciência. Aliás, a chamada de capa está lindíssima.
Aproveito também e coloco aqui a letra de uma música que não me sai da cabeça....rs. Boa páscoa prá todos...
Alceu Valença
Sete Desejos
Recomeçando das cinzas
Eu faço versos tão claros
Projeto sete desejos
Na fumaça do cigarro
Eu penso na blusa branca de renda
Que dei pra ela
Na curva de suas ancas
Quando escanchada na sela
Lembro um flamboyant vermelho
No desmantelo da tarde
A mala azul arrumada
Que projetava a viagem
Recomeçando das cinzas
Vou recompondo a paisagem
Lembro um flamboyant vermelho
No desmantelo da tarde
E agora penso na réstia
Daquela luz amarela
Que escorria no telhado
Pra dourar os olhos dela
Recomeçando das cinzas
Vou renascendo pra ela
E agora penso na réstia
Daquela luz amarela
E agora penso que a estrada
Da vida tem ida e volta
Ninguém foge do destino
Esse trem que nos transporta
E agora penso que a estrada
Da vida tem ida e volta
Ninguém foge do destino
11:00 AM
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Sábado, Março 19, 2005
Neblina
Beatriz estava atravessando a avenida quando avistou Paula, e não hesitou em chamar pelo nome a antiga monitora de acampamento, apesar dos quinze anos que distavam da última vez que haviam se visto. Depois do rápido reconhecimento, convidou-a para um café. Queria perguntar, queria saber e resolver a dúvida que a acompanhava há tanto tempo, e estava decidida a não perder a chance de por um fim naquela angústia que se instalara no seu coração desde aquela estranha e misteriosa madrugada.
No dia anterior àquela madrugada, há quinze atrás, o céu cinzento anunciava o término das atividades do acampamento. Durante a tarde, os doze jovens haviam se embrenhado no bosque, aprendendo a seguir trilhas, deixar rastros, marcar árvores, decifrar sinais e vestígios da passagem de gente, bicho ou vento. O calor era imenso e, depois do banho, retiraram-se para o quarto.
As conversas à meia voz trouxeram o sono, e com ele o descanso. Fadiga, tamanha que Beatriz largou roupas e lanternas de qualquer jeito no chão, aliviada com o silêncio noturno e o repouso tão merecido. Devia ser madrugada quando foram acordados, ela e os demais jovens, aos gritos, pelos monitores, jovens apenas poucos anos mais velhos do que aqueles dos quais cuidavam. O burburinho deixou todos assustados: uma monitora havia sumido, estava desaparecida.
Beatriz colocou os sapatos calmamente, enquanto os amigos se vestiam às pressas, preocupados: desconfiava a menina que tudo aquilo não passasse de um trote, uma brincadeira. Teriam que seguir a trilha da monitora desaparecida, não? Pois sim, essa era apenas a continuação das atividades diurnas, uma oportunidade a mais para treinar o aprendido durante a tarde. Era óbvio, evidente, e ela não iria se desgastar à toa. Na verdade, preferia voltar para a cama e deixar para os demais a busca e o resgate da monitora desaparecida e, no entanto, não havia alternativa. Beatriz se pôs a caminhar pela mata que circundava a casa onde se hospedavam. A madrugada, apesar de serena, vinha vestida com um manto brumoso de névoa; mal dava para enxergar os passos adiante, e os jovens se arrumaram numa desorganizada fila indiana, temerosos. Os barulhos, estranhos aos ouvidos urbanos, assustavam e inquietavam. Gritavam os monitores, às vezes, procurando a amiga perdida. Os jovens, ansiosos, buscavam com o olhar a desaparecida.
Como Beatriz desconfiava, foram encontrando pistas e trilhas: pedaços de folhas caprichosamente arrumadas, setas construídas com restos de madeira, um laço numa árvore mais adiante. Em certo momento, diante de uma clareira, viram garrafas e velas coloridas, pratos com comida, sinais estranhos formando símbolos mais estranhos. Os monitores se afastaram do grupo de jovens e começaram a murmurar e, então, Beatriz se percebeu realmente assustada: estaria a jovem em perigo? A respiração ofegante, o pulso acelerado, as faces geladas e o nariz dolorido com o ar frio da madrugada, Beatriz começou a chorar.
Caminharam pela mata por duas horas e, no retorno à casa, já o dia amanhecendo, reencontraram a moça dada por sumida. Preocupada e nervosa, a voz rouca, Paula contava de um bêbado que a seguira, justamente quando preparava a atividade da madrugada antecipadamente combinada com os outros monitores. Falou também da clareira onde outras pessoas dançavam e cantavam músicas estranhas, do seu medo e da disparada que enfim a desembaraçara do seu perseguidor.
No bar, o garçom trouxe as duas xícaras de café e Beatriz percebeu o embaraço e o espanto de Paula ao ouvir sua pergunta: "Você foi seguida? O que realmente aconteceu?" Paula, espantada, despejou algumas gotas de adoçante no café, e mirando fixamente o rosto de Beatriz, permaneceu em silêncio. Beatriz ficou imóvel, apenas observando Paula.
Pediram mais um café, e um outro, e um pedaço de torta de maçã. Cheias de dúvida e pensativas, recordaram: Beatriz, uma madrugada nebulosa, árvores retorcidas, garrafas coloridas e o medo atravessando a bruma; Paula, uma fuga pela mata e uma respiração estranha no seu encalço. Quando finalmente se despediram, evitaram se olhar nos olhos e, quando se reencontraram meses depois, por acaso, numa festa de casamento, não falaram mais do estranho e mesmo sonho, de muito tempo atrás.
2:04 PM
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Segunda-feira, Março 14, 2005
Na rádio...
Para quem quiser ouvir uma resenha sobre "Debora Fala Reservadamente", é só clicar aqui, e depois selecionar a opção de "ouça". É uma resenha que foi divulgada pela Rádio Cultura de São Paulo, por meio do Projeto Leia Livro.
Boa semana para todos.
7:16 AM
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Quarta-feira, Março 09, 2005
As novidades...
Foi publicado um conto meu, Miriam e os Divisores, na NovaE. Também na NET, duas resenhas sobre o "Debora Fala Reservadamente Com Todos": uma, de Zema Ribeiro, no O Caixote; outra, de Claudinei Vieira, no site literário Capitu.
11:11 AM
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Domingo, Março 06, 2005
O choro de Rafaela...
Rafaela entrou no bar, irritada e nervosa. Trêmula, contou para Davi sobre a discussão insensata e infrutífera durante a reunião do Conselho, a briga com o irmão e a sensação de sobressalto que a dominava. "Às vezes, acho que vou explodir..." As faces vermelhas da moça denunciavam o coração acelerado; os olhos brilhavam, talvez por efeito das lágrimas contidas, ou da raiva represada. Preocupado, Davi começou a murmurar, como se falasse para si mesmo: contou dos avanços que fazia em sua pesquisa, sobre a esquerda judaica do início do século passado. Falou de Lieberman, de Vilna, e das idéias revolucionário-socialistas dos jovens judeus, do Bund, de Lênin e de Bakunin.
Rafaela pediu mais uma taça de vinho ao garçom e, agressivamente perguntou para Davi: "Afinal, por que você está contando tudo isso?". Ele respondeu que apenas tentava distraí-la, e ela então o olhou com ferocidade. Levantando abruptamente, a moça foi para a entrada do bar: chovia torrencialmente, e os clientes olhavam com preocupação o trânsito de carros nervosos. Rafaela ficou ali, parada, indiferente à água gelada que, trazida pelo vento noturno, molhava a sua roupa. À chegada de Davi que, solidário, pretendia permanecer ao seu lado, a moça começou a soluçar, e chorando ficou até que o bar esvaziasse e o silêncio invadisse finalmente a cidade.
1:39 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005
Convido vcs a visitarem o site da Página da Cultura, agência literária, que colocou no ar entrevistas com os autores que representa. A minha entrevista pode ser lida aqui.
A grande novidade dessa semana é que a minha próxima novela, O Discurso da Paixão, será publicada pela NovaE, em capítulos, pela Net. Para a assinatura gratuita, é só clicar aqui.
Um excelente fim de semana para todos.
10:29 AM
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Quarta-feira, Fevereiro 23, 2005
Marina...
Fui lendo os e-mails que chegavam, e fiquei impressionada. Dava para sentir, mesmo à distância, a tristeza de Marina. Os sinais gráficos de felicidade, as risadas em maiúsculas, nada disso conseguia me convencer: ela estava triste.
Mandei piada, escrevi poemas, contei novidades, enviei links interessantes e, a todos esses sinais ela respondeu com elegância. Não, não dava para ignorar; a tristeza de Marina era grande, imensa demais.
Pensei em chamá-la para um passeio de helicóptero, convidá-la para uma cerveja de final de tarde, levá-la para alguma exposição de arte. No MSN, esperei, pacientemente, ela surgir. Eu sabia: a única coisa que podia fazer era assistir, calada, ao sofrimento dela.
Quieta, então, aguardei.
10:39 AM
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Terça-feira, Fevereiro 22, 2005
CLARA
Clara acordou quando a madeira apodrecida caixão fez um estalo, sob efeito da umidade e da terra que fermentava de vida, e era sempre assim, o sono interrompido por obra dos efeitos do tempo e da morte. Cuidadosamente, aproveitou a fresta e moveu-se, tênue fio de fumaça amarelada, para fora da tumba.
Ajeitando os trapos cinzentos de suas vestes, Clara iniciou a caminhada. Como fazia há dois anos, ao passar pelo corredor apanhou no canteiro o facão de cortar arbustos. Ao encontrar Sonia, sorriu. Deram-se as mãos, as duas, conversando enquanto alcançavam o outro túmulo, o do menino filho de Sonia.
Clara lembrava-se. Naquela terça-feira do assassinato do marido e do seu suicídio, o dia havia amanhecido cinzento. Clara acordou com fome e, na cozinha ladrilhada, preparou o café com leite, o pão quente com manteiga, a banana picada com açúcar e mel. Ao bom dia dado pelo marido respondeu silenciosamente, desejando desesperadamente passar despercebida. Comia de forma distraída quando viu o esposo na biblioteca, reclamando do pó nos livros e da desordem da mesa de trabalho. Ainda engolia o resto da fruta quando, num rápido impulso, ao retesar o corpo por causa da lembrança que invadia o seu coração, retirou a chave de fenda da gaveta de ferramentas e enfiou na garganta do homem com quem havia se casado. O mel ainda secava no palato quando Clara se jogou do oitavo andar, estatelando-se na calçada em frente ao edifício.
Ficou ali, durante horas. Apenas perto da hora do almoço chegaram as duas filhas, acompanhadas pelo advogado. Curiosa com o que imaginava estar acontecendo no apartamento, Clara lamentou a própria estupidez. Deveria ter se matado lá mesmo, para observar a movimentação de todos, divertir-se com o cadáver ensangüentado do marido, vigiar se não mexeriam nas suas coisas pessoais, se abririam gavetas ou roubariam as poucas jóias do aparador do quarto. Era tarde demais e esqueceu o assunto, ocupada demais em olhar o mundo dali do chão, e depois os preparativos do enterro, a roupa nova que nela colocavam, o trânsito do féretro até o cemitério, as rezas e o choro dos familiares e amigos.
Aproximando-se do túmulo do marido, Clara suspirou. Com vagar, levantou o tampo de cimento que protegia os restos do caixão. Os ossos ainda estavam lá, bem como as marcas das facadas anteriores, desferidas diariamente nos dois anos transcorridos desde o enterro. O marido abriu os olhos, fitando-a atônito, parecendo pedir o fim do pesadelo. Clara não contemporizou.
- Durma mais tarde. Acorda! Erguendo o facão de cortar arbustos, ela então golpeou o corpo putrefato. Uma vez, duas vezes, três vezes, cem vezes. Parou quando o que sobrava dos músculos começou a doer, impedindo-a de continuar.
- O que eu fiz de tão terrível, Clara, para merecer isso? Me explica, por favor...Me fala, me perdoa e me deixa descansar, Clara... Estou cansado, cansado demais... - o marido resmungou, num soluço.
A mulher sentou-se na grama, ao lado da cova exposta. Explicar? Seria possível explicar? Ele não fazia a menor idéia, ela tinha certeza. Não fora, afinal, por causa dos anos de silêncio e amargura em que ela vivera, à espera de um sorriso, por menor que fosse. Tampouco por causa da falta de carinho, da falta de jeito com que o marido a pegava todas as noites. Também não o matara por vingança, para lavar o sangue em que a empregada doméstica se esvaíra, o aborto mal feito da gravidez da qual o patrão não queria saber. Imaginou que o marido atribuísse sua vingança aos eventuais tapas que haviam trocado durante aqueles anos. Mas, nada disso havia realmente incomodado Clara, e era difícil explicar ao cadáver que suplicava justificativas e perdão. Para tudo aquilo, ela havia conseguido alívio nas preces, nas palavras ouvidas na Igreja, no conforto das amigas. Largando o facão de cortar arbustos, Clara sussurrou baixinho, no ouvido do marido:
- Você não consegue lembrar, e eu não consigo esquecer.
Com desprezo, Clara cerrou a tumba. Sonia já terminava de amamentar o filho e, juntas dirigiram-se aos seus próprios túmulos, o dia se anunciando e a hora do repouso retornando para todos. Tudo era silêncio no cemitério, as almas voando para os seus lugares, amantes se despedindo, pais e filhos se abraçando e prometendo reencontro breve. Clara perdoava tudo, só não conseguia relevar o ocorrido na noite em que a primeira filha nascera. Naquela noite, no hospital, Clara tinha dado à luz depois de um parto difícil, as dores esgotando-na. No quarto, enfaixada e sob efeito dos analgésicos, tentava dormir. Ao seu lado, o marido remexia-se e resmungava, inutilmente procurando se acomodar no pequeno sofá de acompanhante do hospital. Era madrugada quando o burburinho começou, orações ditas em uníssono, pessoas no quarto contíguo se lamentando. Também se ouvia o choro desesperado de uma mulher. Um menino havia nascido morto, a mãe urrava de dor e a família se desesperava. Momentos depois, mais barulho, a maca levando a mulher, os médicos tentando conter a hemorragia. No começo da manhã, os soluços do homem arrebentado pela dor da perda do filho e da esposa.
Como feixe de luz, Clara voltou para o buraco e acomodou a cabeça no montinho de terra que se fazia de travesseiro. Atenta, procurou acompanhar os ruídos da manhã que iniciava, embalando-se na lembrança: naquela noite, há mais de quarenta anos, Clara havia visto o marido, irritado com o barulho, dirigir-se até o balcão das enfermeiras. Nervoso, ele pedia, aos berros, providências imediatas para que os ruídos cessassem e ele pudesse descansar.
Clara, sentindo-se novamente vingada, adormeceu: os homens chegaram com as pás e, inquietos e barulhentos, começaram a cavar a abertura de novas covas.
2:03 PM
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Sexta-feira, Fevereiro 18, 2005
Dica de Fim de Semana...
Por sugestão de um amigo querido, talentoso e extremamente charmoso, a dica para esse fim de semana é Eça de Queiroz, em especial os contos Civilização e José Matias.
Inté segunda,
Ivy
6:35 AM
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Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005
9:15 AM
comentários:
Terça-feira, Fevereiro 15, 2005
9:08 AM
comentários:
Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005
11:07 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005
Dica de Fim de Semana...
Como "ele" mandou que eu lesse Machado de Assis, um querido amigo sugeriu dois contos: A Causa Secreta e A Missa do Galo...
Se vcs também quiserem ler, o link é Machado de Assis...
Bom fim de semana para todos...
10:45 AM
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Quinta-feira, Fevereiro 10, 2005
Despedida
Marina acordou com a luz do dia machucando os olhos. O leve tecido da cortina deixava vazar a luminosidade, e o brilho da manhã acariciava sua face. Levantou-se, preguiçosa. Foi ao banheiro, usou o sanitário, lavou-se, dirigiu-se à cozinha. Lá, viu o recado manuscrito, preso à porta da geladeira com um pequeno imã. A letra de Celso, rápida, firme.
"Querida Marina, querido amor. Não te chamo para não atrapalhar teu sono, tão suave (você chegou cansada ontem, e também não tive a coragem ou ousadia de te chamar para uma conversa...). Parto desse jeito, sem incomodar ou causar qualquer desconforto. Espero conseguir partir em silêncio.
Preciso explicar os motivos? Desde o começo, sabíamos que um dia acabaria. Ou por falta e inconstância do desejo, ou por que conheceríamos outras pessoas, outros interesses, ou, mais triste ainda, por que cumpriríamos a profecia auto-realizadora de não ficarmos juntos para sempre. Prometemo-nos apenas amizade eterna, lembra? Deixo-te então aqui minha fraternidade infinita, o favor maior que eu poderia fazer a uma grande amiga, desaparecer da vida dela sem deixar pistas, reclamar, acusar, o silêncio da compreensão.
Se me encontro apaixonado por outra? É isso que você quer saber? Não, minha querida, não há ninguém além de ti. Se te amo? Te amo, e com uma paixão que eu mesmo acho absurda, incomensurável. Então, imagino a pergunta agora nos teus lábios, querendo saber a razão da minha partida. Também não sei. Apenas percebi, ontem, quando te vi, durante os preparativos para o sono, que não conseguiria ficar mais um dia que fosse ao teu lado. Compreendi a dor do insuportavelmente belo, o peso do carinho intenso demais, asfixiante até.
Vou te poupar das frases de efeito por que sempre fizemos por nos merecer. Não te machuquei mais do que você a mim; admitamos. Dei-me na mesma medida em que você se deu para mim. Não trate essa separação como evidência de fracasso pessoal, de insucesso. Acertamos em tudo e, acredite, nossa separação é acerto também.
Você será generosa e inteligente: não me procure. Deixo para você tudo o que juntamos nesses últimos cinco anos, os livros, CDs, quadros, amigos. Ah, não esqueça de ligar para a Biblioteca, por que avisaram que a tua encomenda já chegou. Também não esqueça do aniversário da tua prima, amanhã à noite, lá no bar. Não esqueça de nada e siga em frente".
Marina dobrou o recado, cuidadosamente. Sentou-se à mesa e esmigalhou um pedaço de bolacha esquecido por cima da toalha. Releu o bilhete, mais uma vez. Uma outra vez quando o sol se equilibrou no centro do céu, a marcar a metade do dia que se fora. Uma outra vez quando anoiteceu, e mais uma vez, e mais uma vez. Admirou-se com a ausência de lágrimas e de brilho nas estrelas que já se anunciavam no céu.
1:05 PM
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Quarta-feira, Fevereiro 09, 2005
Olá,
Foi publicado um conto meu na Revista Novae. É uma estória bastante interessante sobre as filhas do Rabino Mandelbaum e acho q vcs vão gostar. O link para acessar o conto é esse .
Super beijos,
Ivy Knijnik
2:38 PM
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"Reflexos, ecos se encadeando ao infinito. Descobri a doçura de ter atrás de mim um longo passado. Não tenho o tempo de me narrar, mas às vezes, de improviso, eu o vejo em transparência ao fundo do momento presente: ele lhe dá sua cor, sua luz, como as rochas e as areias se refletem na cintilação do mar. Antigamente, eu me embalava com projetos, com promessas. Agora, a sombra dos dias mortos aveluda-me emoções e prazeres"
(A Mulher Desiludida, de Simone de Beauvoir)
12:59 PM
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Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005
O 41o. Aniversário
O bar estava apinhado quando ela chegou. Esgueirando-se, entrou, procurando uma mesa vazia. Sentou-se, pediu uma cerveja, uma porção de batatas fritas e esperou: ele chegaria em breve. Ao telefone, tinham combinado horário e lugar. Comemorariam o aniversário dela, o quadragésimo primeiro. Retirou o celular da bolsa; talvez ele ligasse, avisando de algum atraso, talvez telefonasse pedindo perdão por não amá-la tanto quanto ela o amava.
De tarde, cansada do calor e do acúmulo de provas para corrigir, pegara um livro. Simone de Beauvoir, escrevendo sobre a idade da discrição. Ao chegar da academia de ginástica, ele a beijara, convidando-a a sair. "Está lendo Simone? Hummm, uma gostosa lendo outra gostosa...". A risada dele ecoava nos seus ouvidos agora, misturando-se às frase do livro. O mundo se constrói sob meus olhos num eterno presente. Habituo-me tão depressa às suas faces que ele não parece mudar.
No ano passado, recordou, doía pensar. Na pizzaria onde comemoravam o quadragésimo aniversário - todos os amigos reunidos e a família presente - olhava as outras mulheres, imaginando quais já teriam estado com ele. Vigiava os pensamentos dele, planejando como aprisioná-lo, como acorrentá-lo perto de si. Irritada consigo mesma, ela havia se prometido contenção, discrição, economia ao se dar, satisfação em receber aquilo que ele poderia oferecer. Um ano havia se passado, e agora ela olhava para a porta do bar, ansiosa. "Você tem razão, querido. Sempre alguém ama mais".
Percebia: os doze meses transcorridos não haviam sido suficientes. Ao vê-lo entrar no bar, a mesma alegria juvenil, o mesmo calor nos braços, o andar majestoso, o porte viril, uma dúzia de rosas nas mãos, o amor discreto e calmo no olhar, ela entendeu que acabava de se apaixonar, novamente, do mesmo e exato jeito de quando o vira pela primeira vez. Sorridente e esperançosa, ela recebeu as flores e o beijou.
8:39 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005
A MESA DE JANTAR
O caminhão quase estava totalmente carregado, os móveis amarrados, as trouxas presas por fortes e grossos cordões, quando o pai percebeu o que acontecia. Berrando, ele se dirigiu, não aos homens que transportavam a carga para dentro do veículo, mas aos filhos que observavam a retirada dos objetos de dentro da casa.
- O que vocês estão fazendo com a minha mesa de jantar?
Os filhos se entreolharam. Bem que haviam tentado enganar o homem, aproveitar a bagunça da mudança e se livrar do pesado móvel de jacarandá envernizado. Naquele instante, o pai encarava os filhos, a mágoa estampada no rosto, a indisfarçável amargura. Estavam tentando tapeá-lo? Não haviam prometido que a mesa de jantar receberia um tratamento especial? Com que objetivo, então, com que descaso, como então podiam os filhos agir dessa forma, sub-repticiamente, como se fossem ladrões na calada da noite?
Ao zelador que acompanhava a mudança, orientando o uso dos elevadores e da garagem, o pai contou a estória da mesa, da belíssima mesa de jacarandá, do marceneiro italiano, um sujeito que aprendera o ofício com um importante artesão europeu. A madeira cortada manualmente, lixada com carinho, os desenhos dos detalhes, o cheiro do verniz importado. Além disso, Cacilda servira as refeições, todos os dias, durante cinco maravilhosos anos, ali, àquela mesa. Cacilda, com as ancas redondas e fartas, o sorriso no rosto, o jeito servil. Como então os filhos ousavam jogar a mesa no caminhão? Não bastavam os armários esvaziados, os tapetes dados de presente ao açougueiro, as roupas distribuídas em orfanatos, os pratos da cozinha entregues para a escola da Igreja? Nada disso o incomodava, os filhos que tivessem certeza, mas ele jamais admitiria que a mesa de jantar, a belíssima mesa de jacarandá, fosse deixada daquele jeito, apenas mais um volume no caminhão de mudança.
O filho mais velho irritou-se. O pai parecia irredutível, e os homens do caminhão aguardavam alguma decisão, todos de pé na boléia do veículo, movimentos interrompidos à espera de uma ordem.
- Retira a mesa daí! - ele então gritou, para alegria do pai e espanto da irmã.
Os homens do caminhão afrouxaram os nós que seguravam o móvel e iniciaram a remoção da mesa de jacarandá. A irmã, espantada, colocou os braços na cintura. O que fariam com aquele monstrengo de jacarandá envernizado? O pai que entendesse. Na casa dela não havia espaço, apenas uma salinha acanhada. O irmão pretendia levar a peça para sua própria residência? Não haviam combinado todos a ida do pai para o asilo e o desmanche da casa? E agora? Como resolver?
O irmão sentou-se na calçada defronte ao prédio e acendeu um cigarro. Os homens da mudança pararam de trabalhar, ajeitando-se todos na boléia do caminhão. O zelador usou o interfone para avisar os moradores que os elevadores ainda não estavam liberados, o mundo que esperasse. Ao avistar o pai agarrado à mesa, feliz e o rosto iluminado, a filha começou a chorar baixinho. E agora?
O irmão acabou acertando outra viagem com os homens do caminhão. Eles que levassem a mudança para os lugares combinados e, depois, a mesa de jacarandá para o asilo onde o pai moraria dali para frente. Lá no asilo algum milagre aconteceria, o impasse seria resolvido, e que a mudança fosse feita logo, por que o corretor aguardava a entrega das chaves do apartamento e ele desejava encontrar a amante no final da tarde.
A mesa foi colocada em outra caminhonete e o pai sentou-se numa das cadeiras amarradas às grades do veículo. Recordou o momento em que a mesa entrara na vida da família, a felicidade dos filhos ainda crianças com o móvel imponente que se ajeitava no centro da sala, o orgulho da mulher com o brilho do verniz. Vigiaria o transporte, estava decidido; a casa que se danasse, os outros móveis entregues para qualquer um, a devastação na residência onde tivera e criara os filhos, onde amara com respeito a esposa, onde desejara Cacilda, a boca seca e a mão ansiosa por tocar as carnes duras da mulata. Que tudo fosse para o inferno, a vida era assim mesmo, construir as coisas para depois abrir mão, juntar para depois distribuir, apegar-se para depois perceber a falta de importância.
Ali, na parte traseira da pickup, o pai observou o movimento das ruas, o caminho que fazia, despedindo-se do prédio já distante do campo visual, um derradeiro olhar ao bairro onde morara por tantos anos. No asilo, acompanhou a retirada da mesa da caminhonete e, satisfeito, viu que a colocavam no terreno baldio ao lado do estacionamento, da janela do seu quarto podendo ver a mesa, vigiar a ação de gatunos, acompanhar a ação do tempo. No dia seguinte, decidiu, iniciaria a construção de uma pequena edícula para proteger o móvel, e convidaria os amigos do asilo para um chá no final da tarde. Reuniria os netos à volta da mesa quando das visitas dominicais, contaria para as crianças da habilidade do artesão e do cheiro do verniz importado, alisaria a madeira com carinho.
Deitou-se na nova cama e observou o novo quarto. Inseguro, voltou à janela e olhou mais uma vez para a mesa, solene a reinar no espaço vazio do terreno baldio. Recordou o momento em que salvara a peça do desastre e do abandono e sentiu o corpo formigando à lembrança da antiga empregada, a pele morena, a delicadeza ao perguntar se ele desejava mais alguma coisa, um pouco mais de água no copo, a carne mais cozida, mais feijão no prato, tempero na salada. Orgulhoso de si mesmo, adormeceu, sussurrando baixinho o nome de Cacilda...
9:42 AM
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Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005
(alt 112)aula, sua (alt 112)uta...
Adorava passear pelo teclado, alisando os dedos no recôncavo das teclas, acomodando-se vagarosamente, e era assim que escrevia para Paula, a morena gostosa com quem saía às quintas-feiras. Aos poucos, percorrendo o piano das letras, divertindo-se em seduzí-la e surpreendê-la.
Naquela tarde, mastigando uma bolacha e navegando pelas telas da Rede, selecionou com o mouse a opção da caixa postal dos emails. Assustou-se quando viu, em negrito, a chamada. "Adeus, querido". Coração acelerado, leu a mensagem. Era isso mesmo, uma despedida. Paula tinha conhecido outro homem, estava cansada de esperar pelo divórcio dele, queria viver novas experiências, o verão acabava e ela sequer tinha descansado um pouco.
Trêmulo, o teclado à espera, tentou responder. Como então ela ousava sair desse jeito, dizendo adeus por email, sem ao menos marcar um encontro, dar um ultimato, explicar pessoalmente razões e motivos?Ao apertar a tecla, apenas a ausência no monitor e o desespero inócuo de escrever o nome dela. Cadê a letra "p"?
As migalhas de biscoito no teclado impediam o dedilhar. Insistente, ele digitou. "(alt 112) aula, sua (al 112)uta, que merda é essa?" Ao apertar a tecla de envio, a conexão se perdeu e, irritado, ele chutou a mesa. Depois de reiniciar o computador, percebeu: perdera também as letras "m" e "t". Desolado, entregou os pontos.
10:12 AM
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Terça-feira, Fevereiro 01, 2005
OS DEGRAUS
(Mário Quintana)
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo
8:35 AM
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Sexta-feira, Janeiro 28, 2005
Dica para o fim de semana...
Para esse fim de semana, sugiro a leitura de dois textos, maravilhosos, do Rodrigo Gurgel (Antes do Fim e Ladainha para um dia chuvoso) e um conto, belíssimo, de Davi Oscar Vaz (Chuva Oblíqua)...
Boa leitura....
Inté segunda.
5:41 PM
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Quinta-feira, Janeiro 27, 2005
Duayer
Dora e o Circo...
(um post dedicado ao moço do axé....rs)
Dora lembrou do beijo de Ricardo assim que o espetáculo começou. Talvez pelos olhares atentos de todos ao que acontecia no centro do picadeiro. Talvez pela emoção que pairava, as cordas do trapézio descendo às mãos dos artistas, o palhaço concentrado em arrumar o nariz vermelho, a tensão da domadora dos leões. Talvez, por que o beijo de Ricardo sempre a deixasse em polvorosa, o coração batendo mais forte, a carne arrepiada.
Marcelo, o marido, parecia impaciente ao seu lado. Dora pensou na mala arrumada, pronta no armário, esperando ser levada ao aeroporto. "Estarei com ele amanhã. Nos braços dele, nos beijos dele, no cheiro dele. Amanhã. Não passa de amanhã". Por um momento, sentiu uma ponta de dor. "Será que Marcelo vai me perdoar um dia? Será ele capaz de entender o que me move? Será que Marcelo entende o amor?"
Observando o moço que levantava pesos, as coxas musculosas e o sorriso iluminando a lona do circo, Dora se emocionou. "Será que estou indo longe demais?" Quando a moça da malha de ginástica cor de rosa jogou a esfera para o alto (estrelas salpicadas no tecido, um céu prateado se fazendo de segunda pele), Dora se acalmou. O perfume da pipoca, sal e manteiga passeando por baixo do seu nariz, a fizeram lembrar que a pergunta era outra. Com a boca cheia de saliva, ela se indagou. "Será que estou indo longe o suficiente?" Com o pensamento voltado à mala arrumada, Dora suspirou, suavemente.
11:49 AM
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Quarta-feira, Janeiro 26, 2005
Leibe
Leibe era um homem bastante conhecido no bairro, porque vendia quinquilharias, canetas, relógios, lenços de seda e tudo o mais que se pudesse desejar. Ele se dividia entre as vendas em São Paulo e no interior, para onde levava sua mala cheia de novidades e artigos diferentes. Como regra geral, passava uma semana no Bom Retiro e outra viajando de trem pelas pequenas cidades onde tinha a sua freguesia estabelecida. Leibe era um bom sujeito, na opinião de todos. Eles confiavam na autenticidade fraudada das mercadorias, sabiam que ele sempre fazia algum desconto e simpatizavam com a maneira com que tratava os clientes. Normalmente, compravam o necessário e, depois, iam até a casa dele onde, bebendo um copo de vodka, acertavam a conta do mês. Foi uma surpresa quando souberam da morte de Leibe em Araraquara, vítima de um enfarte precoce. Moshe, o médico de confiança de Gitle, esposa de Leibe, acompanhou os procedimentos de traslado e enterro do velho amigo. Ao retornar, procurou contar calmamente à viúva o que descobrira.
Gitle não quis enterrar o marido debaixo da ponte, e desejou ter a oportunidade de viver uma segunda vida, uma outra encarnação, e ser esposa novamente de Leibe, e ter a lembrança do que acontecera na primeira vida, e matá-lo com o facão de cortar carne. Para espanto de todos, Leibe tinha uma outra família em Araraquara. Uma outra esposa, chamada Maria, e outros filhos, chamados Jacó e José. Como se não bastasse, havia morrido nos braços dessa outra esposa que, por ter sido anteriormente instruída, ligara para Moshe, avisando-o do ocorrido. Mas, o que enfezara realmente Gitle, o que a fizera berrar de ódio e quebrar todos os copos e pratos da casa, não fora nada disso. O que a aborrecera profundamente e a fizera chorar de vergonha - e não havia maneira de esconder, porque os funcionários do Chevra Kadisha* também tinham visto - foi saber que Leibe decorara a segunda casa com os mesmos móveis e a mesma decoração escolhida por Gitle para a residência do Bom Retiro. Por se considerar um homem sem conhecimento e sem bom gosto, por saber que Maria era humilde demais para selecionar as peças e arrumar a casa, aproveitara as escolhas de Gitle e comprara tudo em dobro.
Entendo esse movimento de Leibe. Ele compreendia: a felicidade é peregrina. Leibe, como todos nós, só queria sentir-se sempre em casa.
*Sociedade responsável pela manutenção de cemitérios e outras instituições judaicas.
10:26 AM
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Domingo, Janeiro 23, 2005
Lágrimas Rolam Pela Face...
"...Não existe coisa mais óbvia e pobre, em termos de construção literária, que dizer 'lágrimas rolam pela face'...". Eles falam com ironia e graça, os dois escritores talentosos e charmosos que tanto admiro e ela, minha amiga. Discordo. Por respeitá-los e venerá-los tanto, e por me sentir insegura, protesto baixinho.
Depois, fico pensando. Não, não é óbvio, tampouco pobre. Lágrimas podem, por exemplo, não rolar. Às vezes, ficam entaladas, obstruídas pelo rancor, raiva ou extremo afeto por quem nos observa. Em alguns momentos, podem temer o avanço pelo espaço do rosto, como se pudessem permanecer para sempre, meros lagos profundos a turvar o olhar. Nem sempre lágrimas podem, ou conseguem, rolar.
Além disso, deve-se reconhecer: quando rolam, nem sempre percorrem o caminho da face. Lágrimas podem rolar diretamente para o travesseiro, para a mão que afaga, na direção do gesto que agride. Às vezes, sim, rolam pela face. Algumas vezes, evaporam-se imediatamente, tornando impossível ao observador notar a dor ou o sofrimento. Em outras, voam tão rapidamente que mais parecem pássaros desesperados, assemelhando-se a tudo, menos a pequenas gotas de água e sentimento.
Concluo assim. Não, não é óbvio, tampouco pobre. Nem sempre lágrimas rolam. Nem sempre, ao rolar, o fazem pela face. Para que lágrimas rolem pela face, é necessário - acima de tudo - poesia. Da mesma forma, nem sempre as estrelas brilham. Quando brilham, nem sempre é no céu...
8:26 PM
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Sexta-feira, Janeiro 21, 2005
Dica para o fim de semana...
Quando criança (nem tão criança assim, pensando bem), eu era fã de uma coleção de livrinhos, vendidos em banca de jornal. Gostava de ler as estórias de Brigitte Montfort, a "Baby", espiã Número 1 da CIA, publicadas pela Monterrey. Da mesma editora, também apreciava a leitura das lendas sobre Giselle, mãe de Brigitte.
Para quem quiser curtir, está disponivel na net a integra dos originais de As Memórias Secretas de Giselle, a espiã nua que abalou Paris, publicados no Brasil.
Diversão da melhor qualidade, acreditem....rs
Bom fim de semana para todos.
11:25 AM
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Quinta-feira, Janeiro 20, 2005
faz-de-conta...
Durante a noite passada, sonhando, Anabela lembrou-se de uma atividade escolar, um circo montado lá na Praça 14 Bis. Era só brincadeira de faz-de-conta.
Faziam de conta que eram artistas. Uma garota desenhou, no chão, com giz amarelo, uma linha. Fazia de conta que era trapezista, caminhando com cuidado pelo traço riscado, arriscando-se em movimentos imaginários. Alguns rapazes imitavam orquestra, e a música fazia de conta acompanhar os gestos de outro menino, atirador de facas e malabarista de tochas de fogo.
Hoje, dirigindo pela Av. Nove de Julho, ela procurou o local do circo, desmontado há mais de duas décadas. Ao fechar o farol, desceu do carro e fez uma homenagem àqueles momentos faz-de-conta: usando a memória, deu um salto mortal, de mentirinha. Por um descuido qualquer, morreu...
2:18 PM
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Quarta-feira, Janeiro 19, 2005
Para quem gosta de mandar cartões postais, aí vai uma dica: os belíssimos cartões de Tarot do Duayer, artista genial.
É só clicar aqui.
5:19 PM
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Terça-feira, Janeiro 18, 2005
O Cara Alto...
O cara parecia hirto, travado. Alguém me explicou sobre a imensidão das emoções, o trânsito na sua mente de gênio. No final daquele dia, observando o menino que assistia à televisão, o cara finalmente gargalhou, amarras desatadas e porteira escancarada. Achara graça infinita no olhar irônico do garoto, o pequeno queixo arrogante em sua direção, a deliciosa revolta pela invasão do quarto azul, o humor diante do homem alto e quieto que, imobilizado, lançava sombras no chão de fórmica.
8:55 PM
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